Depois de quase sete anos longe das novelas, Isabelle Drummond está de volta à TV Globo em Coração Acelerado, trama das 19h que estreou em janeiro. A atriz interpreta Naiane, a antagonista que reúne carisma, ambição e uma relação intensa com fama e validação.
O retorno marca uma virada na trajetória da artista, que por anos esteve associada a papéis mais doces e heroínas clássicas do folhetim. Agora, Isabelle assume uma personagem que se move por inveja, ciúmes, egoísmo e desejo de controle, mas sem cair no estereótipo da vilã caricata.
“Acho muito legal para um ator explorar personagens que não são necessariamente perfeitos. Como eu fiz muitas mocinhas, me trouxe um desafio, uma coisa nova”, afirma em entrevista ao Estadão.
A decisão, segundo ela, foi uma combinação de fatores: o desafio artístico, o reencontro com o formato que a formou como atriz e o convite do diretor Carlos Araújo, com quem já trabalhou em outras ocasiões.
“Quando o Carlinhos me ligou, eu já sabia que ele ia me trazer uma coisa nova também”, diz. “Eu gosto muito, admiro as construções dele. Já sentia que era a hora certa.”
A vilã como desejo artístico
Isabelle acredita que, dentro da cultura brasileira da telenovela, existe um fascínio natural pelo antagonista. Para ela, viver uma vilã é quase um rito na carreira de um artista, justamente por permitir um mergulho em emoções e atitudes que, no cotidiano, são reprimidas.
“Tem uma coisa que seduz de alguma maneira o ator a fazer um vilão. Tem um encanto”, diz.
A atriz também lembra uma observação feita por Leandra Leal, que interpreta Zilá, mãe de Naiane. A colega definiu o papel como uma espécie de avanço inevitável para quem atua.
Para Isabelle, Naiane não funciona apenas como uma vilã tradicional, que faz maldades por prazer. O que torna a personagem interessante, segundo ela, é a lógica interna que sustenta suas atitudes: Naiane acredita que sempre está certa.
A atriz explica que a personagem foi criada sem limites, sem referências éticas sólidas e com a sensação de que qualquer ação seria aceita. Essa construção familiar teria moldado uma jovem incapaz de perceber o impacto do que faz.
“A Naiane não foi criada com referências morais. Então, ela não tem moral. Para ela, o que ela quiser que seja, tem de ser”, afirma.
Isabelle ainda destaca que Naiane foi acostumada a receber aprovação incondicional, independentemente de suas atitudes. Isso a leva a agir sem culpa e sem freios. “Tudo o que ela faz é meio que aplaudido ou permitido.”
Na prática, essa mentalidade coloca o desejo próprio acima de tudo. Para a atriz, Naiane se guia pela ambição e pela necessidade de conquistar, mesmo que isso signifique atropelar qualquer pessoa no caminho. “O bem-estar dela está em primeiro lugar.”
A construção emocional: inveja, ciúme e ambição
Interpretar uma personagem tomada por sentimentos intensos, como inveja e ciúmes, exigiu de Isabelle um mergulho em emoções que, segundo ela, existem em todos os seres humanos, mas nem sempre são assumidas ou verbalizadas.
A atriz vê Naiane como uma personagem que representa aquilo que acontece quando emoções negativas não são controladas e passam a guiar escolhas. “Acho que todo ser humano tem sentimentos bons e ruins. E aí a gente escolhe qual vai alimentar.”
Naiane, porém, escolhe alimentar o pior lado sem hesitação. Essa, para Isabelle, é a grande diferença da personagem em relação a outras pessoas. “Ela não balança. Se vier o ruim também, ela vai para cima com ele”, diz.
Ainda assim, Isabelle ressalta que há humanidade na personagem. Naiane ama a família e tem qualidades que a tornam crível, como coragem e impulso empreendedor. O problema, segundo a atriz, é que essas características aparecem contaminadas por egoísmo e falta de limites. “Não é uma vilania caricata. É uma vilania que fala de sentimentos ruins, que não são corrigidos, não são abafados, não são dominados”, afirma.
A novela em tempos de redes sociais
A atriz destaca um dos pontos que mais chama sua atenção no retorno à TV: a forma como a internet transformou o consumo da dramaturgia. Para ela, o público se divide entre quem acompanha a novela diariamente e quem se conecta à história por meio de recortes, cenas soltas e repercussões nas redes. “Consigo ver quem assistiu e quem viu o que isso ‘causou’ na internet. Existem esses dois públicos.”
Ela observa que as redes sociais funcionam como uma narrativa paralela, que amplia o alcance da trama, mas também criam um novo ritmo de consumo mais rápido, fragmentado e baseado em impacto.
“A gente tem a novela que a gente faz na TV e a novela vertical, que são os cortes”, diz.
Isabelle conta que sente essa mudança com mais força agora porque, em suas últimas novelas, esse fenômeno ainda não era tão dominante. Hoje, segundo ela, existe uma expectativa de que tudo esteja nas redes, em tempo real, e que o público participe desse diálogo constante.
O peso do feedback imediato
Se antes a resposta do público levava dias ou semanas para se consolidar, agora ela chega instantaneamente e em grande volume. Isabelle diz que essa velocidade altera a experiência de quem atua e torna o processo emocionalmente mais delicado.
“Quando tenho a oportunidade de ler os comentários, consigo ter um feedback que antes a gente demorava mais para ter”, afirma. Ao mesmo tempo, ela admite que a internet pode distorcer percepções, já que amplifica tanto elogios exagerados quanto ataques gratuitos. “Não posso acreditar em tudo que está na internet. Tem muita gente que só comenta por comentar, ou está chateado da vida e coloca umas coisas horríveis.”
Por isso, ela afirma buscar um termômetro mais real fora das redes, ouvindo pessoas em ambientes cotidianos e tentando entender como a novela está sendo recebida de forma mais honesta.
A vilã que não pode ser muito amada
Interpretar Naiane também significa lidar com a rejeição, e Isabelle garante que já esperava por isso. Para ela, a vilã precisa ser incômoda. Se não gerar desconforto, o papel não cumpre sua função dramática. “Eu estava esperando que as pessoas começassem a achar ela insuportável, porque senão eu não tenho a vilã”, afirma.
A atriz diz não acreditar na ideia de antagonistas feitas para serem adoradas. “Não acredito nessa coisa de as pessoas só amarem a vilã. Eu preciso causar um incômodo, porque senão eu não estou conseguindo sair de mim, não estou conseguindo abrir mão da doçura ou da minha forma de ser.”
Para ela, esse desconforto faz parte do trabalho e também do amadurecimento artístico: abrir mão do desejo de agradar e sustentar uma personagem que não se preocupa em ser aceita. “Eu preciso disso como atriz”, resume.
Quem é Naiane: herdeira, influencer e viciada em atenção
Na trama, Naiane é filha única de Alaorzinho (Daniel Oliveira) e Zilá (Leandra Leal). Criada em um ambiente de privilégios, ela cresceu tendo seus caprichos atendidos desde cedo e herdou da mãe não apenas o temperamento, mas também o caráter questionável.
Ainda criança, interpretada por Carolina Ferreira, Naiane se torna conhecida como “Princesinha Country” ao encantar o público em um concurso com uma coreografia criada por ela mesma. A dança, aliás, vira uma marca registrada: desde então, ela nunca mais para de dançar.
Já adolescente, o tédio de uma vida cercada por luxo e ostentação se transforma em combustível para exposição. Naiane começa a publicar nas redes detalhes do “mundinho perfeito” em que vive — mansões, haras, jatinhos e férias em destinos exóticos — e acaba se tornando uma figura pública em ascensão, mesmo cometendo gafes que a colocam frequentemente no centro de polêmicas.
O que era apenas vaidade vira dependência: consagrada por fãs e haters, Naiane passa a se alimentar do barulho e se torna viciada em atenção.
A mãe, Zilá, percebe o potencial dessa visibilidade e incentiva a filha a ir além. Naiane passa a postar suas danças e se torna pioneira naquele tipo de conteúdo, surfando cedo uma onda que, mais tarde, se consolidaria como fenômeno digital.
A história ganha um novo rumo quando a personagem cria uma coreografia para um novo sucesso de João Raul (Filipe Bragança). A repercussão aproxima os dois e, logo, influencer e astro se envolvem romanticamente. O relacionamento, porém, desperta o lado mais possessivo da jovem, que entra em conflito quando o cantor decide procurar uma garota do passado.
(Estadão)


