O mercado editorial muda o tempo todo: de uma hora para outra pode surgir algum fenômeno editorial – como os livros de colorir – que vai vender milhares de exemplares em poucos meses. Há ainda as tendências que chegam devagar e conquistam o público por mais tempo, como as romantasias e os devocionais.
É trabalho dos editores encontrar e apostar nos próximos fenômenos editoriais, tarefa nem sempre fácil. Por isso, perguntamos para editores reconhecidos do mercado editorial brasileiro, suas apostas e tendências para o mercado do livro em 2026.
Entre os temas que mais se repetiram nas respostas estão a Copa do Mundo e as eleições e como eles podem influenciar nos temas sociais. As apostas na ficção e não ficção nacional, romantasias, Omegaverso e em temas como as mudanças climáticas, saúde mental e psicologia financeira também seguem firmes.
Entre as tendências mercadológicas, a maior aposta no áudio e a vinda de novas ondas, como os livros dentro do ambiente da fantasia, mas que são regidos pelas regras do jogo de RPG, também apareceram entre as respostas.

Os profissionais também analisaram o mercado de forma mais ampla e destacaram mudanças nas preferências e hábitos dos leitores: o crescimento das comunidades de leitura virtuais e presenciais, a maior busca pela vida analógica e a relação da tecnologia com a sustentabilidade. Confira:
Marcos da Veiga Pereira – Sextante
Depois de um ano marcado pelo fenômeno dos livros de colorir, que representou quase a totalidade do crescimento da venda de exemplares, 2026 será desafiador, por ser ano de Copa do Mundo e de eleições, dois eventos que ocupam muito as agendas dos brasileiros.
Acreditamos que a ficção continuará forte, do nosso lado a autora Freida McFadden foi o maior destaque em 2025 e inicia o ano com o filme A Empregada, que está impulsionando as vendas de todos os seus títulos. Nosso maior lançamento de 2026 será a sequência de A Cabana, livro que vendeu mais de 5 milhões de exemplares no Brasil, previsto para outubro.
Trailer de ‘A Empregada’ com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried
Otávio Marques da Costa, diretor editorial – Companhia das Letras
Gostaria de começar em tom positivo: ao longo dos últimos anos, pudemos testemunhar a consolidação de um novo público leitor para a ficção brasileira, em suas várias vertentes. Surgiram livros que, podemos já dizer, marcaram época, não somente por suas qualidades literárias, mas também pelo fato de que tocaram muita gente e ajudaram a formar o seu tempo. Há diversas razões para isso, mas destaco o crescimento de comunidades de leitura, virtuais e presencias, como um dos motores dessa nova força.
Pelo que sei, ouço e posso prever, 2026 será um ano em que autores e autoras brasileiros de ficção seguirão apresentando novidades interessantes, e as editoras permanecerão atentas a esse fenômeno também por sua importância como negócio. Mais do que nunca, estar perto do leitor e da leitora, conhecê-los, conhecer essas comunidades, o que pensam, o que querem, será fundamental.
Será um ano com algumas distrações importantes, como Copa do Mundo e eleições. Especialmente esse último evento e as tribulações da política aqui e fora devem levar à publicação de biografias políticas e grandes reportagens sobre o cardápio cotidiano de escândalos. Mas é preciso reconhecer que o cenário para a não ficção de fôlego é mais difícil do que já foi (competição com outras fontes mais ágeis de informação?, tempo escasso?), a ver como esses livros serão recebidos.
Ainda na não ficção, títulos aplicados, que tratam dos grandes problemas da vida contemporânea, seguirão em alta, me parece: burnout, equilíbrio da vida profissional e pessoal, parenting, saúde mental, psicologia financeira, vício em telas…
Por fim, creio que a grande ameaça existencial aos livros, que é a competição com telas e outros estímulos da vida contemporânea, é também a causa de uma forma de resistência que vem ganhando força, a conscientização de que o hábito da leitura é o único refúgio verdadeiro nesse mundo tão barulhento, além de ferramenta essencial para a formação de pessoas bem pensantes.
Há uma busca pela vida analógica, que vai desde a força que o debate sobre proibição de celulares em escolas tomou até a volta dos puzzles, sudoku, livros interativos. A isso soma-se certo assombro com as rápidas e inexoráveis inovações da Inteligência Artificial, o que tem levado, paradoxal mas compreensivelmente, a uma valorização de tudo que é humano. E nada mais humano que contar histórias. Vejo com otimismo moderado o ano que se descortina!
Cassiano Elek Machado, diretor editorial – Grupo Editorial Record
Há alguns anos, o nosso mercado editorial tem vivenciado uma valorização muito interessante da ficção brasileira. Se durante décadas era muito difícil que um autor brasileiro que não fosse conhecido por suas atuações em outras áreas, seja como ator, humorista ou músico, tivesse vendas consideráveis temos tido nos últimos anos um crescimento do interesse do público pela literatura feita aqui. Creio que ainda mais num ano como o que teremos pela frente, de eleições presidenciais, quando teremos de debater uma infinidade de temas locais, o leitorado deverá estar mais aberto aos livros com sotaque brasileiro.
Rebeca Bolite, editora executiva – Intrínseca
Acreditamos que a ficção seguirá forte em 2026, com ênfase nas temáticas reconfortantes e escapistas. A fantasia permanece nas listas, e a cozy fantasy (narrativa fantástica em cenários charmosos, e foco nos relacionamentos e nos detalhes da rotina em vez de batalhas épicas) é uma aposta da editora Intrínseca, que lançará em março — entre outros títulos do gênero ao longo do ano —, A loja de feitiços, de Sarah Beth Durst.
Entre os livros de não ficção, destaque para as obras que tratam de temas atuais, como inteligência artificial. Livros sobre bem-estar, saúde e relacionamentos seguem nas listas e um dos livros que terá bastante repercussão em termos globais é o muito aguardado Protocolos, de Andrew Huberman, previsto para o segundo semestre.
A instabilidade no cenário geopolítico internacional deve ser destaque nos eventos internacionais.
Samuel Coto, diretor editorial da HarperCollins Brasil
Acredito que três das grandes temáticas do ano passado vão continuar. A principal delas sendo o gênero infantil que foi uma das áreas que mais cresceu no mercado do ano passado. A gente tem uma leitura de mercado sobre isso: que a principal coisa que aconteceu foi que grandes grupos editoriais mais comerciais, incluindo a Harper, entraram com maior afinco nesse mercado.
De coisas que estavam funcionando e devem seguir crescendo vejo o gênero romance, principalmente, esses romances híbridos, romantasias e dark romance. Também tem uma tendência específica que vem dos Estados Unidos e que eventualmente a gente vai fazer muito livro, que é essa área do Omegaverso [subgênero de romance erótico com elementos de fantasia].
E o último pilar de crescimento do mercado do ano passado foi o dos livros religiosos. O que nós estamos vendo é algo similar ao que aconteceu no último ciclo eleitoral, principalmente nesse ambiente da discussão da sociedade com a religiosidade. A gente teve um grande salto em autores que falam principalmente sobre o papel do cristão dentro da sociedade.
No mercado em geral, o áudio está começando a ter uns indícios maiores, com vendas começando a melhorar. A gente tem um indício nos bastidores de que editoras estão produzindo e convertendo o seu catálogo em áudio. Então, de uma forma mais ampla, eu vejo a gente chegando mais próximo de um momento em que o áudio é mais relevante por aqui.
Também vejo algumas tendências que estão fortes no exterior que eu acredito que podem dialogar com esse momento atual do Brasil que é o que está acontecendo com o RPG nos Estados Unidos. O maior no fenômeno lá é o Dungeon Crawler Carl que virou mega bestseller e o lugar principal onde ele explodiu foi no áudio. Essencialmente são livros dentro do ambiente da fantasia, mas que são regidos pelas regras do jogo de RPG. Acho que tem algo aí, mesclado aos movimentos do áudio.
Destaco ainda o diálogo mais direto das editoras com consumidores. Há uma parte importantíssima desse diálogo e historicamente ele é iniciado pela livraria.
Ana Lima, editora-executiva – Rocco
Entre as tendências de 2026, alguns temas que já vinham fortes no último ano, como tecnologia e sustentabilidade: O Império da IA, Karen Hao; Cobalto de sangue, Siddharth Kara e Design para um mundo melhor, Don Norman. Mais do que nunca, está evidente que o consumo irresponsável de recursos naturais está acelerando o aquecimento global — 2025 foi um dos anos mais quentes da nossa história e isso tem relação direta com o uso indiscriminado de ferramentas de IA, que consomem grandes quantidades de energia e exigem, para a instalação de data centers, terrenos gigantescos.
As desigualdades sociais estão mais evidentes, com o sul Global tornando-se tanto um fornecedor de mão de obra barata para treinar modelos de IA generativa como a primeira opção para o aluguel de terras que comportem a instalação dos megacampus que hoje correspondem aos data centers — depois do Chile, o novo alvo é o Brasil, mais precisamente o Nordeste.
Ainda na não ficção, livros que podem enriquecer o currículo e oferecer vantagens em relação a automatizações seguem em alta. O escapismo segue sendo grande tendência, com apostas em fantasia.
Mario Santin Frugiuele, editor da Todavia
O mercado editorial vive de antecipar tendências, ainda que isso seja sempre um exercício especulativo. A realidade muda rápido — e muda de forma brusca, como mostram os atuais desarranjos geopolíticos —, mas alguns temas seguem claramente em alta.
A inteligência artificial e as eleições presidenciais no Brasil aparecem como apostas seguras. Devemos ver um aumento expressivo de títulos de não ficção voltados a esses assuntos, com livros que buscam dar conta do presente em tempo real, reunindo relatos a quente do que estamos vivendo. Nesse conjunto de retratos do agora, entram também o true crime e a mudança climática, temas que continuam mobilizando leitores e autores. Em um cenário de fragilização democrática, é provável ainda o retorno de livros interessados em explicar a engrenagem geopolítica do mundo e suas tensões.
Na ficção, o movimento parece ir na direção oposta. Em vez da urgência do presente, cresce o interesse por narrativas ambientadas em tempos remotos ou por romances que experimentam outras formas de pensar o tempo, como se a literatura buscasse deliberadamente um afastamento da imediatidade do hoje.
Esse deslocamento pode ser percebido tanto na consolidação da romantasia, no campo mais comercial, quanto no fortalecimento da ficção imaginativa de modo mais amplo, em contraste com a autoficção, gênero que vive anos de grande protagonismo no Brasil e no mundo.
Eloah Pina, editora da Fósforo
Por 2026 ser ano eleitoral, é provável que os leitores busquem ensaios políticos, livros que dialoguem com as questões do presente e possam elucidar posições e cenários, em busca de se atualizarem do debate público. Outro tema de interesse, que já havíamos observado no ano anterior e que deve continuar com força, é o da saúde, sobretudo das mulheres, como menopausa e envelhecimento. No gênero da ficção, por outro lado, talvez livros breves que proponham um mergulho interior, focados ou não nas mazelas sociais, podem chamar atenção.
Rejane Dias dos Santos, diretora executiva e editora – Grupo Autêntica
Acredito que uma das principais tendências para os próximos anos, especialmente na ficção, seja uma virada de chave em relação aos grandes temas sociais e identitários que ocuparam o centro do debate e da produção literária recente.
Nesse contexto, nosso foco passa a ser, cada vez mais, a busca por bons contadores de histórias, independentemente da temática, com romances sólidos do ponto de vista literário e capazes de atravessar o tempo, para além do debate imediato. Também ampliamos nossa aposta em biografias, iniciada com Presente do acaso, de Silviano Santiago.
O catálogo de 2026 reafirma ainda um compromisso consistente com a revisitação de clássicos, sustentado por traduções cuidadosas, aparato crítico sólido e um projeto editorial claro de recontextualização dessas obras para o leitor contemporâneo.
Seguimos investindo na continuidade de séries e na fidelização de públicos, a partir de uma estratégia de construção de longo prazo com leitores. Essa aposta se expressa tanto na literatura juvenil quanto no middle grade, segmento especialmente relevante para a formação de leitores.
Na não ficção, cresce o interesse por livros que buscam fazer um diagnóstico crítico do presente e explicar o espírito do tempo (expressão que, não por acaso, nomeia uma de nossas coleções) para um público amplo, sem recorrer a abordagens excessivamente especializadas.
Outro eixo muito evidente é o da saúde mental e do cuidado psíquico, emocional e relacional, abordado sob múltiplas perspectivas. Esse interesse atravessa a psicanálise, com novas edições e traduções de obras de Freud (um patrimônio do nosso catálogo), a psicologia clínica, e ainda sobre o excesso de consumo digital, como em Nação Smartphone (Dra. Kaitlyn Regehr).
Vamos continuar apostando na força da literatura nacional, tanto na ficção quanto na não ficção. Na linha infantojuvenil, podemos destacar os livros Meu professor é um ET, de Umberto Mannarino, além de novos títulos das séries de sucesso As Aventuras de Mike e Princesa Desastrada.
(Estadão/Imagem: Divulgação)


