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TEATRO

Danielle Winits sai da zona de conforto: ‘Já servi ao estereótipo de loira sexy’

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A atriz Danielle Winits, de 52 anos, nunca invejou a grama do vizinho. Sempre preferiu regar o próprio jardim para vê-lo brotar de acordo com os seus desejos e, assim, saborear as conquistas sem pensar no que os outros têm ou deixaram de ter. Um exemplo desta postura autocentrada é o atual momento profissional com o diretor Gerald Thomas no espetáculo Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente, em cartaz no Teatro Faap, depois de uma temporada repleta de elogios no Rio, no fim do ano passado. “Eu sempre quis ser dirigida pelo Gerald, muitos duvidaram que ele aceitaria e aqui estou, muito feliz e aproveitando a oportunidade”, diz ela. Se eu não fosse assim, focada no meu trabalho e no meu momento, sofreria por não estar filmando em Hollywood, por exemplo.”

No monólogo, Danielle interpreta a executiva de uma grande empresa que enlouqueceu e virou catadora de lixo. Em conversas com seres extraterrestres, ela procura uma saída para a superficialidade do cotidiano e a lógica capitalista.

O texto da norte-americana Jane Wagner, montado na Broadway pela comediante Lily Tomlin em 1985, passou por uma cirurgia nas mãos de Thomas. Os múltiplos personagens foram centrados em uma só e referências à internet, às redes sociais e à inteligência artificial trouxeram contemporaneidade à história. “As questões daquela época não são mais as de hoje porque a coisa ficou mais complexa e confusa”, justifica o diretor. “Eu só topei porque pude fazer todas as interferências necessárias e, ainda por cima, não fazia ideia de que era a Danielle.”

O que poderia ter sido um empecilho foi a mola-mestra para a relação da dupla. Danielle estava cansada da imagem de loira sexy, explorada com o seu consentimento há três décadas, e acreditava que Thomas poderia tirá-la da zona de conforto. “Eu nem sabia dessa imagem e cheguei limpo desses vícios que ela e o público alimentavam”, comenta ele, que vive nos Estados Unidos e não se interessa pelas novelas brasileiras. “Sabia que estava lidando com uma atriz que, com bastante trabalho, se mostrou uma grande atriz.”

Os ensaios não foram simples, exatamente como Danielle imaginava, e cumpriram o desafio imposto por ela mesma. “Eu queria ser desconstruída, ser rasgada em cena, me desgarrar das facilidades e truques que adquiri ao longo da carreira”, conta a protagonista. “Gerald deixou a loucura me invadir e fez com que eu tirasse todas as máscaras às quais estava acostumada.”

Thomas conheceu Danielle em uma sala de ensaios debaixo do Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, já que, na época, em julho, ela ainda estava em cartaz na cidade com o musical Meninas Malvadas. A futura protagonista esperava uma leitura em dupla do texto seguida de comentários, debates. Não houve. Thomas pediu que ela se sentasse no chão e falasse de tudo, da vida, do teatro e, sem o texto na mão, percebeu a atriz desorientada.

O diretor pegou seu contrabaixo, começou a tocar e pediu para que Danielle dançasse acompanhando as mudanças de ritmo propostas. Uma interrogação tomou conta do ambiente. “Eu sabia que ela precisaria daquilo que chamo de ‘regência’ e pedi que se escondesse atrás de um montão de sacos de lixo, respondendo a alguns impulsos que eu fazia com o estalar dos dedos”, conta Thomas. “É muito difícil dirigir um ator ou uma atriz com múltiplos focos, e Dani tem uma grande qualidade: concentra o foco nela e no espelho, é só ela e o espelho.”

Refém de um rótulo
Thomas percebeu o tal “foco” que Danielle garante estar entre os nortes de sua carreira. Segundo ela, nunca se distanciar do eixo é algo que a acompanha desde as aulas de balé clássico e teatro na adolescência, da estreia na televisão na minissérie Sex Appeal (1993) até a atual fase que, ausente das novelas e séries, se dedica ao teatro também como produtora.

“Eu sempre me blindei de algum jeito para tocar o meu trabalho e não me contaminar com competitividade ou intrigas”, declara a atriz. “Se a televisão está menos interessada em mim é que talvez as necessidades do mercado mudaram e as pessoas não me enxergam em outros papéis além daqueles estereotipados que interpretei.”

Danielle constata essa realidade sem traumas ou vitimismo. Ela que, mesmo no teatro interpretou a atriz Marilyn Monroe em duas peças, Depois do Amor (2016) e Palmas, Senhor Presidente (2019), reconhece que usou a facilidade da loura sensual na composição de vários personagens. “O Wolf Maya (diretor de TV), um dos meus mestres, sempre disse que eu deveria usar isso a meu favor”, lembra.

Hoje, na maturidade, Danielle reconhece que se tornou refém deste rótulo e até colaborou para alimentar os preconceitos de uma sociedade machista e patriarcal em relação às mulheres. “Eu já servi bastante ao estereotipo da loira sexy e, no teatro, posso chegar a um outro lugar”, diz. “Minhas escolhas buscam outros caminhos e o que quero falar como artista tem a ver com o que quero da minha vida.”

Por vezes, o “foco” se voltou com mais intensidade para a vida pessoal do que para a carreira. Danielle é casada com o ator André Gonçalves, tem dois filhos, Noah, de 18 anos, e Guy, de 14, de seus relacionamentos com os atores Cássio Reis e Jonatas Faro, respectivamente, e assume que, por escolha, privilegiou a intimidade em detrimento da carreira.

“Em muitos momentos, dei prioridade a outras coisas na minha vida e tive dores, momentos de sombras, conflitos, fui rotulada, apedrejada pela mídia e pelas pessoas, mas procuro fazer bem o que há para mim”, afirma. “No primeiro ensaio, o Gerald me avisou ‘não tenho nada pronto, você vai me dar o caminho, então esqueça o cabelo, a maquiagem, o figurino’ e, no fim das contas, isso diz muito de mim.”

(Estadão)

(Foto: Dalton Valério)

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