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TELEVISÃO

Dança das cadeiras: Entenda as recentes mudanças nas emissoras de TV

Dança das cadeiras

Não é só José Luiz Datena que anda de mala pronta. A televisão brasileira atravessa um período de instabilidade e reposicionamento estratégico. Demissões, pedidos de desligamento, contratações inesperadas e reformulações de grade transformaram os bastidores em uma dança das cadeiras, atingindo desde emissoras comerciais até canais públicos e educativos.

Nos últimos meses, nomes consagrados deixaram programas históricos, novas lideranças assumiram o comando editorial e formatos tradicionais passaram a ser repensados para dialogar com um público cada vez mais fragmentado.

SBT: reestruturação após a era Silvio Santos

A morte de Silvio Santos marcou não apenas o fim de um ciclo, mas o início de uma reorganização no Sistema Brasileiro de Televisão. Sob a liderança de Daniela Beyruti, filha do fundador, a emissora iniciou uma ampla revisão de sua identidade, programação e estratégia de longo prazo.

A principal aposta de 2025 foi a união de Boninho e Tiago Leifert. A dupla se reencontrou no retorno do The Voice Brasil, agora fora da Globo, com Leifert no comando e Boninho na direção.

Além disso, a emissora avalia novas faixas de programação para 2026, incluindo:

– Um jornal no fim da tarde
– Uma atração feminina nas manhãs
– Um programa diário de debates esportivos

Nos bastidores, o SBT também tenta se reposicionar no entretenimento feminino e negocia nomes de peso. Entre os mais comentados estão Cátia Fonseca e Luciana Gimenez, ambas fora da TV aberta no momento. Além disso, recentemente Cariúcha pediu demissão do SBT e trocou Fofocalizando pelo Superpop, da RedeTV!.

Ainda, em dezembro de 2025, o Grupo Silvio Santos, definiu um novo canal, o SBT News, com programação 24 horas, passando a operar como um projeto multiplataforma, ampliando a presença do grupo no jornalismo em tempo integral.

Record: telejornais redesenhados e ajustes estratégicos

A Record TV promoveu uma reformulação silenciosa, porém abrangente, em seu jornalismo. Sem alarde, praticamente todos os telejornais passaram por alterações de formato, equipe e horários.

Mudanças no Balanço Geral:

– Thiago Gardinali, após quase dois anos no Balanço Geral Manhã, assumiu o Balanço Geral vespertino
– O jornalista divide agora a apresentação com Eleandro Passaia, com Gardinali atuando diretamente das ruas de São Paulo em grandes reportagens

A emissora também promoveu o retorno da dupla Reinaldo Gottino e Renato Lombardi ao Cidade Alerta, movimento que refletiu positivamente nos índices de audiência.

Com isso:

– Gardinali foi deslocado novamente para o Balanço Geral vespertino
– Diógenes Lucca também mudou de faixa
– Lombardi e Roberto Guastelli passaram por ajustes de horário

Paralelamente, Boninho encara um novo desafio fora do SBT. Ele prepara o reality inédito A Casa do Patrão, previsto para estrear entre abril e julho deste ano, marcando sua chegada à Record com um formato totalmente novo.

RedeTV!: demissões em massa e aposta na modernização

A RedeTV! vive um dos períodos mais turbulentos de sua história recente. A emissora passou a concentrar esforços em uma reestruturação de grade, com foco em modernização e reposicionamento de público.

As saídas de peso:

– Luciana Gimenez deixou a emissora, encerrando vínculo de 25 anos com a TV
– Ronnie Von pediu demissão após uma sequência de desligamentos em sua equipe
– Datena também deixou a emissora e migrou para a TV Brasil
– Para ocupar o espaço deixado por Luciana Gimenez, a RedeTV! contratou Cariúcha, que deixou o SBT e assumiu o SuperPop.

Nos bastidores, há rumores de, cancelamento de programas matinais, reformulação completa da programação diária e ajustes estruturais sem demissões em massa, mas com redução de custos e novos formatos.

TV Gazeta: Crise interna e reestruturação

A TV Gazeta, com mais de 50 anos de história, enfrenta uma de suas maiores reestruturações. Após a demissão de toda a alta cúpula, em maio de 2025, a emissora iniciou uma reformulação administrativa e editorial ampla.

Saídas e mudanças nos programas:

– Após quase 20 anos, Carol Minhoto foi demitida do Você Bonita e migrou para a Rede Brasil de Televisão, onde agora comanda o novo programa Beleza e Vida
– Pamela Domingues, então apresentadora do Programa Mulheres e filha da ex-superintendente Marinês Rodrigues, também foi desligada em dezembro de 2025
– O Mulheres passou a ser comandado apenas por Camila Galetti

De acordo com informações internas, a jornalista Gloria Vanique, ex-Globo e CNN Brasil, está próxima de fechar contrato para assumir a apresentação da atração feminina.

No jornalismo:

– Luciana Magalhães foi demitida e Joana Treptow, ex-Band, assumiu o telejornal da emissora

TV Cultura: nova gestão e mudanças em programa histórico

Com quase 60 anos de história, a TV Cultura também passa por transformações importantes após a chegada de uma nova liderança institucional.

Maria Angela de Jesus assumiu a presidência do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta há sete meses, iniciando uma nova fase administrativa e editorial.

Após seis anos no comando do Roda Viva, Vera Magalhães deixou a atração. O jornalista Ernesto Paglia foi anunciado como seu substituto, assumindo um dos cargos mais simbólicos do jornalismo televisivo da TV Cultura.

Um novo desenho para a TV aberta

Mais do que decisões pontuais ou crises isoladas, a atual dança das cadeiras nas emissoras de TV dialoga com um processo histórico recorrente da televisão brasileira: momentos de ruptura costumam surgir quando um modelo chega ao limite. Foi assim na virada dos anos 1980 para os 1990, com o fim da TV centralizada em poucas figuras. Nos anos 2000, com a profissionalização das grades e a consolidação do jornalismo ao vivo, e agora, novamente, diante de um cenário em que a TV aberta disputa atenção não apenas com outras emissoras, mas com o streaming, as redes sociais e a fragmentação radical do público.

A diferença é que, desta vez, a mudança não é apenas estética ou de linguagem, ela é estrutural. A saída de apresentadores históricos, a circulação de nomes entre emissoras concorrentes, a aposta em executivos vindos de outros contextos e a reformulação simultânea de jornalismo e entretenimento indicam que a televisão busca redefinir seu papel num ecossistema midiático em que a fidelidade do público já não é garantida pelo hábito. O que está em jogo não é só quem ocupa a cadeira, mas o que essa cadeira ainda representa em uma TV que precisa se reinventar para continuar relevante.

(Estadão / Imagem: Adobe Stock)

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