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24/10/2026
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‘Carrie’: Nova série do Prime Video reinventa o clássico de Stephen King

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A nova adaptação de Carrie, clássico de Stephen King, deixa de lado o passado e abraça o presente em uma ambientação em uma escola do século 21. A série, que estreia nesta quarta-feira, 7, no Prime Video, agora aborda o bullying contra a protagonista de uma maneira diferente: a perseguição não acaba mais com o soar do sino e a ida para casa, mas permanece constante em virtude dos celulares e das redes sociais.

A história, originalmente lançada por King em 1974, acompanha a jovem Carrie White, uma menina que era criada longe de tudo e todos, dentro de sua casa ao lado dos pais – numa mudança com relação à primeira versão. Por meio de sua mãe, Margaret, o fanatismo religioso, as teorias da conspiração e o medo do desconhecido tomam conta da família. A garota, no entanto, se vê forçada pelas circunstâncias a enfrentar o ensino médio, onde se torna alvo dos colegas.

A trama ganhou várias versões ao longo dos anos, sendo a mais famosa o filme de 1976 de Brian De Palma, estrelado por Sissy Spacek. Esta mais recente, em oito episódios, fica a cargo de Mike Flanagan, que se consagrou como um dos grandes nomes do terror recente em produções como A Maldição da Residência Hill (2018) e Missa da Meia-Noite (2021).

Carrie agora é interpretada por Summer H. Howell, escolhida após uma seleção com mais de mil atrizes. Ao Estadão, ela diz que tomou a decisão consciente de não ler o livro nem assistir às adaptações anteriores.

Ela confessa que percebeu o quanto o público é apegado à obra original e cheio de expectativas, mas enfatiza que a clareza de Flanagan, diretor e showrunner, foi essencial: “Mike tinha uma visão clara eu; confiei nele. Foi isso o que me manteve focada e feliz para criar a minha nova versão dela, e só espero que as pessoas deem uma chance a ela.”

Do fanatismo ao cyberbullying

Uma grande mudança na narrativa está na posição da mãe de Carrie perante ela. Na nova adaptação, Margaret (Samantha Sloyan) não odeia a filha, mas por conta do ambiente em que vive, tem essa necessidade de protegê-la da forma que acredita ser a correta, isolando-a do mundo.

“Nos anos 1970, o fanatismo religioso foi usado meio que como o motor principal que impulsionava a Margaret White como esse monstro abusivo. Mas com a nossa Margaret White, nós não queríamos fazer isso”, disse Flanagan em entrevista ao Estadão. “Acho que isso já tinha sido feito, e feito de forma icônica pela Piper Laurie e pelo Brian De Palma. A nossa Margaret White não odeia a filha. Ela ama a filha. Ela quer proteger a filha”.

“O fanatismo religioso reflete mais a visão de mundo dela, que tem a ver com muito mais do que religião e se baseia amplamente nas informações que ela recebe sobre o mundo a partir deste ponto de vista completamente isolado; o fanatismo dela é mais político, tendendo até para teorias da conspiração e outras coisas que meio que nascem na internet”, completa.

Em nova adaptação, Margaret não odeia sua filha Carrie. Foto: Liane Hentscher/Prime Video

O diretor segue ao explicar a forma como o isolamento de Carrie do restante do mundo – sem acesso à internet e às redes sociais -, acaba por impactar sua vida, ao mesmo tempo que a relação da mãe com a tecnologia também sofre interferência: “Do mesmo modo que a Carrie ficou ‘de quarentena’ das redes sociais e da internet, a Margaret teve um recorte muito específico exposto a ela, mas nada além disso. Acho que muita gente consegue se identificar com isso.”

“E acho que isso era mais interessante para nós do que o fanatismo religioso, as redes sociais e tudo mais. Estamos falando da adolescência”, continua, comentando sobre como o bullying se adapta a essa nova realidade. “Isso parecia ser vital se quiséssemos ter a Carrie indo para a escola. É simplesmente uma parte enorme da vida, do bullying, da crueldade e de como nossa sociedade é moldada hoje.”

A relação de mãe e filha

Em conversa com a reportagem, as atrizes que interpretam as mulheres da casa White também refletiram sobre o relacionamento entre mãe e filha. Para construir essa conexão, as duas passaram por preparação, auxiliadas por Flanagan.

“Mike começou o processo de ensaios conosco, o que é bem incomum para a televisão”, disse Sloyan. “Mas isso realmente criou a base para que eu e a Summer construíssemos uma relação uma com a outra, já que você tem pouquíssimo tempo para construir algo como uma relação de mãe e filha. Isso foi extremamente, extremamente útil”.

“E o fato de que a nossa relação nisto parte do amor. Na maior parte do tempo, elas são cúmplices, mas elas se amam”, completou Howell. “Isso torna tudo ainda mais desafiador para elas quando os conflitos surgem e elas percebem suas diferenças e como a Carrie está tentando se afastar, como os adolescentes fazem quando querem descobrir a si mesmos e ao mundo.”

A nova abordagem na relação das personagens mostra uma mãe constantemente preocupada que a filha seja pega pelo pecado, de forma que ela toma suas atitudes com o objetivo de proteger Carrie. Isso mudou também a forma de trabalhar Margaret: “O que acontece se a Margaret e a Carrie se amarem? O que acontece se começarmos daí?”, disse Sloyan. “Ambas estão isoladas do mundo há 15 anos. Então a Carrie está entrando nesse mundo novo e aterrorizante, mas a Margaret também está. E acho que gostei muito desse processo de pensar: ‘como seria caminhar pelo mundo que criamos hoje se eu estivesse ausente há 15 anos, e o quão aterrorizante isso poderia parecer?’”

O bullying que ultrapassa os limites da escola

Alison Thornton e Josie Tah interpretam duas personagens importantes no inferno de Carrie: Chris, a responsável pela criação da página que humilha a protagonista e a ataca diariamente, e Josie, a amiga que auxilia Chris e não se opõe à perseguição.

“Acho que, às vezes, o espectador — a pessoa que só segue a onda — é tão ruim quanto, ou até pior, porque não se posiciona”, explica Tah. “E mesmo que talvez saiba o que é certo, todo mundo quer se encaixar na escola. Às vezes você simplesmente não sabe quem você é e se sente tão desesperado por esse sentimento de validação que decide por si mesmo quem é a pessoa que vai te dizer que você é o bastante, e aí passa a seguir cegamente tudo o que ela diz.”

Carrie sofre cyberbullying em nova adaptação do Prime Video. Foto: Prime Video/Divulgação

Para Thornton, Chris utiliza-se das vantagens das redes sociais, como o alcance e o anonimato, em benefício de suas atitudes: “Acho que ela sente muito poder com o anonimato das redes sociais, e também pode atingir uma escala muito maior. Todo mundo pode ver se houver bullying online, e deixa de afetar apenas o alvo pessoalmente para afetar a comunidade inteira. Além disso, tem esse aspecto de humilhação pública que acho tão aterrorizante. E acho que, sim, a Chris está realmente em busca de poder nesses momentos, e é daí que ela o tira.”

Figuras de autoridade falham em proteger

No novo universo de Carrie existem duas figuras de autoridade dentro da escola que não possuem o controle da situação, de forma que a protagonista não consegue apoio para enfrentar a perseguição. Matthew Lillard interpreta o diretor Grayle, e Amber Midthunder vive a professora Desjardin, ambos em lados opostos na discussão.

Enquanto a personagem de Midthunder é uma das poucas a apontar a problemática da ação e busca auxiliar Carrie, o diretor opta por tratar o bullying com panos quentes, até que a situação escala e uma tragédia acontece.

Em uma cena da série, a professora afirma que, não há muito tempo, teria estado na pele de Chris.

“Tem uma cena ótima no final delas correndo voltas em que a Chris Hargensen não desvia o olhar de você”, diz Lillard para Midthunder. “E acho que essa é uma das coisas incríveis: não acho que a Sra. Desjardin se importe com o resultado final, porque ela é a adulta ali naquela situação.”

“E se importa genuinamente com elas. Acho que a minha personagem está em uma posição na qual ela diz algo como: ‘Não faz tanto tempo assim que eu seria você’. E por isso ela consegue olhar para a Chris e pode essencialmente dizer a ela: ‘Eu vejo quem você é porque eu já fui você’. E ela consegue olhar para a Carrie e saber o nível em que ela está meio que em perigo e o quanto ela é vulnerável”, completa a atriz.

Matthew Lillard vive diretor Grayle em nova série de ‘Carrie’. Foto: Robert Falconer/Prime Video

O ator acredita que o diretor Grayle representa a frustração de muitos administradores escolares que se sentem impotentes diante de regras e burocracias. Segundo ele, caso o personagem seguisse seus instintos reais, teria expulso Chris Hargensen imediatamente, mas a política do cargo o obriga a jogar um jogo do qual não tem controle. “Acho que faz parte da complexidade deste roteiro que o Mike escreveu. Em uma versão simples e previsível, ele teria expulsado a Chris e a história acabaria ali. Mas o que ele faz é criar um retrato autêntico de um diretor de ensino médio que, no fim das contas, é impotente”.

Todos os episódios de Carrie estarão disponíveis no Prime Video a partir desta quarta, 7.

Foto: Robert Falconer/Prime Video

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