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Programe-se

19/09/2026
REENCONTRO

Barão Vermelho prova em Curitiba que algumas músicas simplesmente se recusam a envelhecer

Barão

Há shows aos quais a gente vai para ouvir música. E há aqueles em que, em algum momento, percebe que está ouvindo também pedaços da própria vida. Foi mais ou menos isso que aconteceu sábado à noite, em Curitiba, quando o Barão Vermelho subiu ao palco do Igloo Super Hall.

Antes mesmo do primeiro acorde, havia uma particularidade evidente naquela plateia. Muita gente não estava ali apenas para ver uma banda. Estava para reencontrá-la.

Roberto Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros e Dé Palmeira voltaram a dividir o mesmo palco na turnê Barão Vermelho Encontro, acompanhados por Fernando Magalhães, guitarrista que entrou para o grupo em 1985. É praticamente uma fotografia viva de uma história iniciada há mais de quatro décadas e que ajudou a definir o rock brasileiro dos anos 1980.

E talvez esteja justamente aí o primeiro mérito do show: ele não parece um museu.

É claro que existe nostalgia. Seria impossível não existir. Boa parte das pessoas que estavam ali conheceu aquelas músicas quando elas ainda eram lançamentos, comprou discos, gravou fitas, ouviu rádio e atravessou adolescências e juventudes embaladas pelo Barão. Mas o que sai das caixas de som não tem cheiro de peça guardada no armário.

Tem guitarra. Tem bateria. Tem volume. Tem rock.

Frejat continua sendo a figura que naturalmente concentra os olhos. Não precisa fazer grande esforço para isso. A guitarra pendurada, a voz imediatamente reconhecível e uma coleção de músicas que dispensam apresentação resolvem a questão. Ao redor dele, porém, está justamente aquilo que torna essa turnê diferente de mais uma passagem de um artista veterano pelos seus sucessos: a sensação de banda.

Guto Goffi está lá. Maurício Barros está lá. Dé Palmeira está lá.

E quando os quatro tocam juntos, existe uma espécie de memória muscular coletiva difícil de fabricar.

O repertório da turnê atravessa diferentes épocas do Barão e reúne músicas como “Maior Abandonado”, “Bete Balanço”, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, “Por Você”, “Puro Êxtase”, “Codinome Beija-Flor” e “Pro Dia Nascer Feliz”.

É curioso observar o público durante essas canções.

Em algumas, os celulares imediatamente sobem. Em outras, quase se tornam desnecessários. A impressão é que determinadas letras estavam armazenadas havia décadas em algum compartimento da cabeça e bastaram dois ou três acordes para serem recuperadas inteiras.

O tempo produz essas coisas.

Uma música que aos 20 anos falava de uma paixão impossível pode, aos 50 ou 60, trazer de volta não exatamente aquela pessoa, mas quem você era quando a escutava. O Barão Vermelho dispõe de um catálogo inteiro capaz de provocar esse tipo de viagem sem aviso.

E Cazuza inevitavelmente está ali.

Não fisicamente, obviamente, mas seria impossível contar essa história sem que sua presença atravessasse o espetáculo. Ele deixou o Barão em 1985, mas algumas das principais canções daquela fase permanecem indissociáveis de sua escrita, da parceria com Frejat e de uma maneira muito particular de transformar inquietação, desejo, excesso e fragilidade em música.

O próprio Maurício Barros definiu, antes da turnê, que Cazuza estaria representado justamente pelas letras e pelas músicas.

Está.

Talvez um dos aspectos mais interessantes seja perceber como letras escritas numa época tão específica conseguiram escapar dela.

Não é pouca coisa.

O rock brasileiro dos anos 1980 produziu bandas enormes, mas também criou músicas profundamente identificadas com aquele período. Algumas envelheceram junto com o figurino, com os sintetizadores e com os penteados. Outras atravessaram a fronteira geracional.

As melhores do Barão estão nesse segundo grupo.

“Bete Balanço” ainda funciona. “Maior Abandonado” ainda funciona. “Pro Dia Nascer Feliz” continua capaz de transformar uma multidão num coro. E “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” talvez tenha conseguido algo ainda mais difícil: envelheceu melhor do que muita gente que a ouviu pela primeira vez.

Também existe alguma coisa de comovente em ver músicos que começaram a tocar juntos quando eram praticamente garotos reencontrarem seus lugares no palco mais de 40 anos depois.

Não porque estejam tentando parecer aqueles garotos.

Justamente porque não estão.

O cabelo mudou, o país mudou, o público mudou e eles mudaram. A graça é perceber que, quando a banda começa a tocar, alguma engrenagem construída décadas atrás continua funcionando.

O Barão Vermelho Encontro começou no Rio de Janeiro em abril e passou por outras capitais antes de chegar a Curitiba. Não representa oficialmente uma volta de Frejat à formação atual do Barão, mas um projeto especial que reúne os músicos históricos para revisitar essa trajetória.

Essa diferença parece burocrática até o show começar.

Depois deixa de importar.

Ali, diante do palco, ninguém está discutindo organograma de banda.

É o Barão.

E talvez a melhor medida para um espetáculo desse tipo seja justamente aquilo que acontece quando ele termina.

Você sai com a estranha sensação de ter voltado algumas décadas sem ter realmente saído de 2026.

No caminho de casa, algumas músicas continuam tocando mentalmente.

E aí se entende por que aquelas canções sobreviveram.

Não era apenas porque éramos mais jovens quando as ouvimos.

Elas eram boas mesmo.

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